Não podia ser mais claro: só aquela pessoa entre as 6 bilhões do
planeta pode fazer você sentir o que está sentindo. E é muita coisa.
Você está mais feliz do que uma criança numa piscina de algodão-doce, as
preocupações sumiram... Na verdade, o resto do mundo evaporou. Ela é
tudo o que importa. Se ela está longe, você sente dor. Dor para valer,
como se tivesse apanhado. Mas, se ela chega perto, vira o melhor
analgésico do mundo. Parabéns: você está apaixonado. Caiu na maior peça
que a natureza já pregou.
“O amor é um mistério.” Coloque essa
frase no Google, em qualquer língua, que vão chover músicas, livros,
blogs e o que mais for com esse título. Afinal, seria pretensão demais
alguém dizer que entende o amor romântico. Mas não para a ciência. Do
ponto de vista de quem estuda o assunto, há um consenso: a paixão é o
jeito que o seu corpo encontrou de avisar outra pessoa que uma força
maior, totalmente incontrolável, fará com que você esteja sempre por
perto.
Pense bem. No fundo, os relacionamentos não passam de um
mercado: a tendência é escolher a pessoa mais bonita, inteligente,
charmosa e bem resolvida entre aquelas que toparem ficar com você. É
como o mercado de aluguéis. O proprietário sempre quer o melhor
inquilino do mundo, mas tem de se contentar com o melhor que aparecer. O
inquilino quer o apartamento mais incrível, mas tem de ficar feliz com
o menos ruim que encontrar.
Nisso, temos uma relação instável: a
qualquer momento o inquilino pode se mudar para um apartamento melhor e
deixar o proprietário na mão. O dono do imóvel também pode dar uma
bundada no inquilino se encontrar alguém mais interessante, como um
parente, para morar em seu apartamento.
É para evitar esse tipo
de problema que existem contratos para reger os aluguéis: quem passar o
outro para trás tem que pagar uma multa. Isso desencoraja tanto um
quanto outro de romper o acordo. E as duas partes ficam mais tranqüilas
enquanto o contrato está de pé.
O amor funciona mais ou menos
assim. Com a diferença que a natureza não escreve leis no papel, mas no
seu corpo. Como saber que um parceiro não vai trocar você, leitora,
pelo primeiro rabo-de-saia com mais balanço que o seu? E você, leitor?
Quem garante que ela não vai fugir com o professor da academia na
semana que vem? Ambas as escolhas podem ser tão racionais quanto mudar
para um apartamento melhor. Então qual é a saída? Juntar-se com alguém
que não está com você por um motivo racional, mas justamente pelo
oposto disso: uma emoção. “Uma emoção que a pessoa não decidiu sentir
e, portanto, não pode decidir não sentir. Uma emoção que não será
imediatamente transferida para outro. Uma emoção que garantidamente não
é simulada, porque tem custos fisiológicos como taquicardia, insônia e
anorexia. Uma emoção como o amor romântico”, diz o psicólogo Steven
Pinker, da Universidade Harvard, em seu livro Como a Mente Funciona.
O
amor, então, funciona como um contrato de rescisão com multa
altíssima. Alguém completamente apaixonado por você não vai sumir de
uma hora para outra, não vai “trocar de apartamento” e deixá-lo na mão
(até vai, se for o caso, claro, mas não com a mesma facilidade de
alguém que não ama você). Ok. Mas aí chegamos a outro ponto: o que faz
esse “contrato de rescisão” surgir assim, do nada?
O ponto é que
ele não aparece exatamente do nada. Seu cérebro fica esperto com certos
sinais. Sinais que indicam que ali está um bom pai, ou uma boa mãe,
para os seus filhos. E um deles está na cara, literalmente. É a...
Beleza
Do
mesmo jeito que a natureza não escreve leis de rescisão de contrato,
ela não nos equipa com estetoscópios e máquinas de tomografia
computadorizada. Mesmo assim, surgiram sinais eficientes para os outros
detectarem a saúde de um parceiro potencial, e, em última instância,
sua capacidade de gerar muitos e bons filhos. Chamamos o conjunto
desses sinais de “beleza”.
Claro que cada tempo e cada lugar tem
seus padrões de beleza. Aquelas modelos com maquiagem dos anos 80
parecem palhaças hoje. E a depilação vaginal no estilo brazilian seria
uma aberração há 20 anos. Mas moda é uma coisa e sinais de saúde e
fertilidade são outra. Esses são universais no tempo e no espaço.
Simetria,
por exemplo. Ter um lado do corpo o mais parecido possível com o outro
mostra que o seu organismo está ok – mutações genéticas desagradáveis,
como nascer com uma perna muito menor que a outra, quebram nossa
simetria natural. Diante disso, nossa percepção extrapolou a parte
prática e nos muniu com um software que diz “quanto mais simétrico,
melhor”. E são essas pessoas que qualquer um vai achar mais bonitas.
Tanto que, para ficar feio, basta simular uma assimetria, como pintar
um dente de preto na festa junina ou fazer uma careta. Até bebês de 3
meses passam mais tempo olhando rostos bonitos, os perfeitamente
simétricos. E têm medo de careta.
“As mulheres, inclusive, atingem
mais orgasmos com homens simétricos”, diz a antropóloga Helen Fisher,
da Universidade Rutgers, nos EUA. Faz sentido: a contração orgástica
faz a mulher absorver mais esperma – suas chances de engravidar do
bonitão aumentam.
E elas também ficam mais atraentes justamente
quando estão mais férteis: as mãos, orelhas e seios (quem liga para
mãos e orelhas?) ficam mais simétricos durante a ovulação.
Existem
mais proporções que todo mundo acha naturalmente mais bonitas. Homens
com o tronco em forma de triângulo, com ombros largos e sem gordura na
cintura ou na barriga, são mais resistentes a vírus e bactérias. Eles
podem dar filhos mais saudáveis, então seu corpo já parece mais
saudável que os outros do mercado de corpos. Isso também vale para o
maior indicador de fertilidade nas mulheres: a relação entre o tamanho
da cintura e o dos quadris. Nos homens, nas crianças e nas mulheres que
já passaram pela menopausa, a circunferência da cintura mede entre 80 e
95% da dos quadris. Nas mulheres em idade fértil ela fica entre 67 e
80%. Logo que ficam férteis, elas criam um depósito de gordura que
serve como reserva de calorias para um eventual bebê.
O instinto
dos homens sabe disso, então eles ficam excitados só de ver uma
proporção assim. E aí vale aquela regra da simetria: a cabeça extrapola
isso e entende que “quanto mais fina a cintura e maior o quadril,
melhor”. Pesquisas mostram que os homens gostam mais das que têm uma
proporção de 70% ou menos. Faz sentido: os 90-60-90 (90 cm de busto, 60
cm de cintura e 90 cm de quadril) que os concursos de misses
consideram como ideal de beleza representam 66%. A Mulher Melancia, capa
da Playboy mais vendida no ano, tem 64% (75 x 119 cm). A garota,
aliás, não teria problemas para arranjar namorado em nenhuma época. O
psicólogo Devendra Singh, da Universidade do Texas, mediu 286 esculturas
antigas de mulheres, vindas da Ásia, da África e da Europa, e viu que a
proporção entre cintura e quadril nas obras ficava nessa faixa.
Um
belo quadril, por sinal, não significa só mais filhos. Uma pesquisa da
Universidade de Pittsburgh mostrou que as crianças que tinham mães com
a relação cintura-quadril na faixa de 70% apresentavam um QI maior, em
média, que as outras. A tese é que as calorias armazenadas ali
ajudaram no desenvolvimento do cérebro dos fetos.
Mesmo com essas
vantagens todas, todo mundo sabe que um rosto e um corpo bonitos não são
tão importantes quando o assunto é amor romântico. O apelo sexual das
pessoas com esses sinais externos de saúde e fertilidade é absurdo. Só
que ninguém se apaixona por uma bunda, por um par de ombros
Michael-Phelpianos ou pelo rosto da Ana Hickman (tudo bem, aí até
dá...). O ponto é que a beleza conta, sim. Mas, Vinícius de Moraes que
nos perdoe, ela não é fundamental. Existe uma coisa bem mais
importante: o sistema imunológico do outro.
Coisa de pele
A
reprodução sexuada só existe por um motivo. E não é “dar prazer”. O
prazer é só a droga com que o corpo nos recompensa pelo trabalho de
combinar nossos genes com os de outra pessoa, já que isso pode gerar um
filho.
E tem de recompensar mesmo: ter um filho é como fazer uma
retífica de motor nos genes. Por exemplo: se você se reproduzisse por
brotamento, como certas formas de vida, e tivesse nascido com um
sistema imunológico que não soubesse se defender de algum tipo de vírus
mortal, o risco de seu filho nascer com o mesmíssimo problema seria de
100%. Mau negócio.
Mas você é sexuado. Então basta juntar os seus
genes com os de alguém imune ao vírus. Aí seus filhos têm mais chance
de nascer com o patrimônio genético recauchutado.
Constituir
família com uma pessoa assim, que tenha um sistema imunológico
complementar ao seu, significa garantir uma prole com mais chances de
sobrevivência. Ótimo negócio. Mas e aí? Como saber quem tem esses genes
preciosos?
Parece inusitado, mas você tem um equipamento capaz de
fazer isso: seu nariz. Uma experiência que já virou clássica, criada
pelo biólogo suíço Claus Wedekind em 1995, mostra isso. Funciona assim:
primeiro, os cientistas fazem testes em vários homens e mulheres para
medir seus sistemas imunológicos. Depois, pedem que eles usem a mesma
camiseta por alguns dias e devolvam ao laboratório. Então as mulheres
cheiram as dos homens, e vice-versa. E cada um monta um ranking com os
cheiros que consideram mais sexy. Resultado: preferimos o odor de quem
tem um sistema imunológico diferente do nosso. Quanto maior a
diferença, mais gostosa a sensação de cheirar a camiseta. Se uma peça
de roupa de alguém com um sistema imunológico complementar ao seu já dá
prazer, imagine a pessoa inteira... Isso ajuda a explicar a “coisa de
pele” alegada pelos casais apaixonados. Do ponto de vista do sistema
imunológico, eles realmente são duas metades, um é a tampa da panela do
outro. E que se dane que ele não seja o Cauã Reymond nem ela a Grazi
Massafera. O amor pode até ser cego de vez em quando, só que tem olfato.
Mas
o segredo do amor não está só na diferença. As semelhanças são
fundamentais e também contam pontos no sucesso de um relacionamento. Há
um pouco de Narciso aí dentro de você: na hora de se juntar para valer
com alguém, pode achar feio o que não é espelho.
Almas gêmeas
Imagine
o seu próprio rosto transformado em um do sexo oposto. É possível que
você considere essa pessoa virtual como o melhor par romântico
possível. É o que concluiu o psicólogo David Perret, da Universidade
Saint Andrews, na Escócia, depois de pesquisar as reações de seus
estudantes aos próprios rostos metamorfoseados. A maioria escolheu a si
mesmo, sem saber, como o parceiro ideal.
Isso parece contradizer a
história dos sistemas imunológicos diferentes. Mas, na verdade, uma
coisa não invalida a outra: realmente existem casais que se parecem com
irmãos, mas isso não significa que essas mesmas pessoas se sintam
atraídas por seus irmãos do sexo oposto – cujas defesas do organismo
são quase idênticas.
Mas é fato que as pessoas parecidas com você
inspiram mais confiança, dizem os pesquisadores. Por quê? Segundo
Perret, talvez porque elas lembrem o rosto dos seus pais, as primeiras
pessoas em quem você confiou na vida.
Quando o assunto é atração
sexual pura e simples, a vantagem é do tipos mais diferentes: um homem
baixo pode ter a fantasia de transar com uma mulher muito alta ou uma
princesinha de ir para a cama com um ogro. Mas, na hora de escolher
para o longo prazo, é básico que haja identificação, seja na aparência,
seja na mente.
“Todos nós carregamos uma marca psicológica que
leva minúcias sobre experiências da nossa vida e as cicatrizes que
essas experiências deixam em nós. Ao conhecer alguém que fisicamente
possa nos interessar, procuramos escanear essas marcas nela”, diz o
psicólogo Arthur Aron, da Universidade Stony Brook, nos EUA.
A
idéia aqui é a seguinte: as pessoas que mais atraem você são aquelas
que têm “cicatrizes” parecidas com as suas. Mas com algo a ensinar. “O
parceiro ideal, nesse caso, é aquele que sofreu com problemas parecidos
com os seus, mas encontrou maneiras diferentes de resolvê-los”, Aron
afirma. Por esse ponto de vista, um homem que teve uma infância
problemática vai preferir uma moça sensacional que passou pela mesma
experiência do que outra tão interessante quanto, mas que não viveu
nada disso.
Mas você sabe que não precisa saber a biografia toda
de alguém para se apaixonar. Segundo pesquisas que Aron fez com pessoas
que não se conheciam, meia hora de conversa é o suficiente para saber
se existe alguma conexão. Se houver mesmo, algum tempo depois uma
avalanche química vai invadir o cérebro. E você vai saber que se
apaixonou.
O processo, lá dentro, começa com descargas de dopamina
– a mesma substância que a cocaína e a heroína ativam no cérebro. É
ela que faz você se sentir violentamente feliz quando o ser amado está
por perto. É ela que dá a sensação de que o mundo todo está soltando
fogos enquanto vocês se beijam. Por outro lado, os efeitos colaterais
são insônia, taquicardia e falta de apetite. Sem falar na sensação de
dependência química – as dores físicas que os apaixonados sentem têm um
paralelo nas crises de abstinência dos viciados em drogas.
Essa
montanha-russa é demais para qualquer organismo. Por isso mesmo a
paixão tem data para expirar: até 3 anos. E o que a faz evaporar é
justamente um relacionamento saudável. Isso mesmo: quem destrói os
hormônios da paixão são substâncias que o corpo libera durante os
orgasmos (veja na página 100). Se a relação continuar bem, elas vão
fazer você se sentir cada vez melhor com o seu par, fortalecendo os
laços entre os dois. E serão o gatilho para o instinto de virar mãe e
pai – as mulheres, por exemplo, têm esses mesmos hormônios ativados
durante a amamentação. Aí todos vão viver felizes para sempre... A não
ser que um dos dois pule fora para recomeçar esse jogo todo com outra
pessoa. Afinal, paixão vicia. E nem todo mundo usa com moderação.
Amor químico
O jogo do relacionamento tem 3 estágios. Cada um dirigido por hormônios diferentes. Veja como
1. Atração
Quem
manda aqui é a testosterona, presente nos homens e nas mullheres, mas
em quantidade bem maior nos machos. Ela dá o impulso para você chegar
em alguém interessante.
2. Paixão
Se você
ficar encantado(a), entra em ação a dopamina, que causa euforia e faz
com que você concentre toda a atenção possível no seu amor. Efeitos
colaterais: insônia, perda de apetite e taquicardia.
3. Comprometimento
Com
o tempo a paixão violenta baixa, e quem toma terreno é a ocitocina
(nas mulheres) e a vasopresina (nos homens). Eles transformam o
turbilhão de êxtase do começo num mar calmo de satisfação.
Epílogo
Encontrar
o “par perfeito” é uma tarefa sujeita às leis da natureza. Depois cada
casal constrói a sua história, certo? Mais ou menos. Veja as
classificações que psicólogos criaram para descrever os tipos de
relacionamento mais comuns:
Pai e filho
Um
dos parceiros se comporta como o filho. Ele acredita que, se continuar
assim, inseguro e dependente, o parceiro vai cuidar dele. O que assume
o papel de pai se esquece das próprias necessidades.
Mestre e escravo
Um
dos parceiros fica inseguro se algum dia sentir que pode ficar
subordinado ao outro, então acaba assumindo a posição de comando,
enquanto o outro, que teme a responsabilidade, deixa-se ser controlado.
Caça e caçador
Aqui,
o acordo (inconsciente) é que um fique buscando intimidade e o outro
fuja dela o tempo todo. Às vezes a presa vira caçador, e o jogo
continua.
Ídolo e fã
Um consente em colocar
o outro em um pedestal porque não quer competir e evita se comparar
com o parceiro, atitudes que poderiam gerar conflito. Para que isso não
aconteça, os dois concordam inconscientemente com sua posição.
Cão e gato
Na
superfície, mal parece um casal. Brigam o tempo todo por qualquer
motivo e evitam a intimidade criando um campo de guerra. Mas eles
gostam. Não das brigas, mas das recompensas que surgem nas tréguas.
Para saber mais
Por Que Amamos: A Natureza e a Química do Amor Romântico
Helen Fisher, Editora Record.
Science of Love: The Wisdom of Well-Being
Thomas Jay Oord, Templeton Foundation Press.

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